As Ofensivas das Mulheres da Elite

As Ofensivas das Mulheres da Elite

João Goulart era conhecido pela sua grande capacidade de dialogar com todos os setores da sociedade. Nem assim conseguiu a simpatia da elite brasileira, que sempre o viram com desconfiança. Isolado pelos empresários e por grande parte dos políticos, Jango, a partir de janeiro de 1964, voltou-se para as entidades que lhe apoiavam, entre elas a União Nacional dos Estudantes (UNE) e o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Para mostrar ao povo a força do governo, apoiado pelas entidades de esquerda, o presidente marcou um comício para o dia 13 de março, que se realizaria no Rio de Janeiro.
A tensão estava criada. As mulheres da elite, cada vez mais organizadas, participavam de cursos financiados pelo IPES, nos quais recebiam aulas de preparação para pregar a união da família contra o perigo do comunismo ateu. Devidamente instruídas, elas levavam às amigas, aos empregados domésticos, às comunidades, as lições aprendidas contra o perigo vermelho. A Limde, a UCF e a Camde, promoviam grandes participações em programas de rádios, reuniões com adesões cada vez maiores, distribuíam panfletos, enviavam telegramas e cartas aos políticos e às entidades representativas, sempre em nome da defesa da pátria e da família cristã; chegaram a enviar mais de 50 mil cartas ao Congresso Nacional.
Conforme a tensão aumentava os conflitos entre a esquerda e a direita, também as mulheres ficavam mais ofensivas. Em janeiro do fatídico 1964, Belo Horizonte iria receber o congresso da Central Única dos Trabalhadores da América Latina. Em resposta à realização do evento, a Limde espalhou que enviaria as suas militantes para o aeroporto, deitar-se-iam na pista, evitando que as delegações pudessem desembarcar. Diante do impasse, o congresso foi transferido para Brasília. A mesma entidade voltaria a radicalizar em fevereiro, quando Leonel Brizola, de passagem por Belo Horizonte, discursava na Secretária de Saúde a favor das reformas de base; as mulheres invadiram o auditório com rosários na mão e pronunciando orações, calando o deputado, causando um grande tumulto. O episódio passaria para a história como a “noite das cadeiradas”.