“Vermelho Bom, Só o Batom”

“Vermelho Bom, Só o Batom”

Como já descoberto acima, a Cruzada do Rosário, promovida pela pregação do padre Peyton, atingiu as mulheres da elite brasileira, e também, grande parte da população católica. O que não era citado era o profundo teor reacionário desses conservadores católicos que além dos comunistas, punham no mesmo saco de inimigos o espiritismo, a umbanda, o protestantismo e a maçonaria. No comício da Central do Brasil do dia 13 de março, João Goulart daria uma resposta à hipocrisia conservadora da Cruzada do Rosário:
“Não podem ser levantados os rosários da fé contra o povo, que tem fé numa justiça social mais humana e na dignidade das suas esperanças. Os rosários não podem ser erguidos contra aqueles que reclamam a discriminação da propriedade da terra, hoje ainda em mãos de tão poucos, de tão pequena minoria.”
O discurso de João Goulart foi considerado ofensivo às mulheres, às suas entidades e à Nossa Senhora. A verdade é que o comício da Central do Brasil incomodou profundamente aos conservadores. Mais uma vez a hipocrisia religiosa foi dada como desculpa para que a elite pudesse defender os seus interesses seculares. Em resposta ao comício, a UCP organizou uma grande manifestação em São Paulo, em defesa da “ofensa” feita pelo presidente à Nossa Senhora. Foi escolhida a data de 19 de março, dia de São José, o santo protetor da família, para a realização de uma grande marcha que se destinava a sensibilizar os brasileiros da ameaça comunista que pairava contra a nação. À frente da convocação à família paulistana, foi usado o nome de Leonor Mendes de Barros, mulher do então governador de São Paulo, Adhemar de Barros. Entre 14 e 16 horas, formaram-se na Praça da República, grupos de pessoas em volta de elegantes mulheres, que traziam nas mãos bandeirinhas do Brasil e rosários. As mulheres eclodiam pelo país as “marchas da família, com Deus, pela liberdade”. Se o comício da Central do Brasil reunira 100 mil pessoas, quando a marcha desembocou-se na Praça da Sé, cerca de 500 mil pessoas a acompanhava. Aproximadamente 80 entidades participaram do manifesto. Durante o trajeto, faixas estampavam o objetivo da marcha, trazendo frases que entrariam para a historia, como “Está chegando a hora de Jango ir embora”, “Verde e amarelo, sem foice nem martelo” e “Vermelho bom, só o batom”.
O palanque montado na Praça da Sé só foi atingido uma hora depois do início da marcha. Leonor Mendes de Barros hasteou a bandeira brasileira, o Hino Nacional foi tocado pela banda da Força Pública. Foi feita uma oração pela salvação da democracia, abrindo-se logo a seguir, o palanque para os discursos. Carlos Lacerda e Adhemar de Barros limitaram as suas presenças no evento, o primeiro não discursando, o segundo sobrevoando a praça de helicóptero. Ao agir assim, deixaram estrategicamente as glórias do evento às mulheres.