A divisão do mundo político em dois blocos após a Segunda Guerra Mundial, tendo de um lado os Estados Unidos e a Europa ocidental, do outro lado a União Soviética, fez com que se instaurasse a Guerra Fria. Não só os interesses ideológicos e econômicos foram postos em causa, como também o destino e o futuro da igreja romana no mundo. A Europa estava completamente ocupada e devastada pelo poderio nazista. Duas frentes dos aliados vieram em seu socorro, uma liderada pelos americanos, que entrou nos países ocupados pela Normandia, e outra liderada pelos soviéticos, vinda do leste, a partir de Moscou. Ao libertar o leste europeu, os soviéticos não só expulsaram os nazistas dali, como também a igreja, considerada pelos comunistas a responsável direta pela miséria e alienação dos povos através dos tempos. Estava instaurado o chamado comunismo ateu.
A Guerra Fria estava em seu auge no início dos anos 60. A revolução socialista cubana em 1959, deu o sinal de alerta para os americanos, a desigualdade social, a miséria e o poder latifundiário, faziam da América Latina campo fértil para as revoluções socialistas. O catolicismo enraizado nesses países também estava ameaçado. Quando John Kennedy ascendeu à presidência dos EUA, tornava-se o primeiro presidente católico daquela nação. Em 1961 Kennedy lançou o programa de ajuda econômica e social à América Latina, a Aliança para o Progresso, surgindo paralelamente o plano Caritas. Em princípio de caráter humanitário, o Caritas (caridade em latim) além de distribuir alimentos, medicamentos e esmolas para os latinos americanos, ele servia como atenuante dos ideais revolucionários socialistas, apontando-os como incessíveis à fé. Financiado pelos católicos dos países ricos, o Caritas alertava o povo, propagando que o ateísmo marxista destruiria as igrejas, separaria as famílias e mataria todos os conceitos familiares tradicionais do povo latino americano. No final de 1963, foi enviado para o Brasil o padre Patrick Peyton, devidamente chancelado por Kennedy e pela Agência Central de Inteligência (CIA), que o tinha sido preparado. Peyton era famoso por gostar de aparecer ao lado de celebridades. O padre iniciou uma pregação pelo Brasil, aliciando principalmente, as mulheres católicas do país. No início de 1964, com suporte técnico feito por Washington, o primeiro programa em rede da televisão a cobrir todo o Brasil, foi uma missa celebrada por Peyton. O padre abriu caminho para as chamadas marchas da família, dando origem à Cruzada pelo Rosário em Família. Promovia o lema de que a família que rezava unida, permanecia unida. Seus rosários em família eram disputados pelos brasileiros. A Cruzada do Rosário tinha surgido nos Estados Unidos em 1945, e adotara como símbolo o rosário católico como principal arma contra o comunismo.
Paralelo ao trabalho da igreja, foi reativado o IPES, existente desde 1952, mas até então com pouca relevância. Sob o comando do coronel Golbery do Couto e Silva, esta entidade era uma organização que corresponderia às atuais organizações não-governamentais (ONGs), era financiado por empresas nacionais e multinacionais e pelo próprio governo. O IPES tornou-se forte articulador da desestabilização do governo. Em 1959, o economista Ivan Hasslocher criou o IBAD. Apoiada por poderosos empresários brasileiros e estrangeiros, a entidade financiava meios de comunicações, políticos e entidades de oposição ao governo de João Goulart. IPES, IBAD e a igreja católica, seriam os principais incentivadores das organizações das mulheres, ajudando na criação de várias delas, incitando-lhes às marchas contra o suposto comunismo do governo janguista, e até financiando essas entidades.
Sob a benção do IPES, em 1962 surgiu em São Paulo, a União Cívica Feminina (UCP). A entidade era composta pelas mulheres da mais alta elite paulistana. Se a UCP começou a campanha contra João Goulart em nome da defesa da moral e dos bons costumes da família e do direito à integridade religiosa, terminou por defender a elite, atemorizada pela convicção do presidente em promover reformas de base que beneficiariam grande parte da população, contrariando interesses de empresários, latifundiários e de multinacionais.
Na cidade do Rio de Janeiro, capital do estado da Guanabara, a elite reuniria as suas mulheres dentro da Campanha da Mulher pela Democracia (Camde). Em Belo Horizonte, Minas Gerais, surgiria a Liga da Mulher Democrata (Limde). UCP, Camde e Limde unir-se-iam em uma das maiores cruzadas políticas feitas pelas mulheres brasileiras, marchando de encontro aos golpistas militares que implantariam uma longa ditadura no Brasil, a mais feroz de todas que o país viveu em sua história.
